quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Mensagem Temporária Utilizada para Detecção do Tema (cdbb1818-2b2f-49e1-80d2-d6e1e6f721d0 - 3bfe001a-32de-4114-a6b4-4005b770f6d7)

É uma mensagem temporária que não foi eliminada. Elimine-a manualmente. (5c359ad6-c75c-47e4-bbbf-2fbb185a0eeb - 3bfe001a-32de-4114-a6b4-4005b770f6d7)

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Vera Queiroz

 

Gravei as palavras do teu poema.
Para que ninguém,
jamais,além do meu coração saiba.
Que o poema mais lindo,
hoje escreveste em mim.
Vera Queiroz

Foto: Gravei as palavras do teu poema.
Para que ninguém,
jamais,além do meu coração saiba.
Que o poema mais lindo,
hoje escreveste em mim.

Vera Queiroz

sábado, 4 de agosto de 2012

"Los Maragatos”: um povo com sete vidas

 

"Los Maragatos”: um povo com sete vidas

 

Existem há séculos mas dizem-nos muito pouco. Localizado na província de Leão, Espanha, este povo insere-se num enclave geográfico e cultural, a “Maragatería”. Um autêntico achado que desafia o cavalgar da globalização. Têm tanto de enigmático como de puramente desconhecido. A sua identidade é a sua força e o mundo, o seu maior refúgio. Como?... É a história de um povo que resiste como “os gatos”.

maragatos espanha povo

© Maragatos de Murias de Rechivaldo (León, Espanha), (Wikicommons, Rodelar).

O termo parece aludir a uma espécie invulgar de felinos mas sabe-se que “maragato” deriva de “mericator”, “mercador”. Fizeram do comércio (e, recentemente, da música) a sua arte profissional, também pelas jazidas de ouro existentes no território. Apesar da resistência geográfica e da solidez cultural se manterem, hoje, contra as expectativas (mas tal só seria possível numa Espanha constituída pelas diferenças culturais e autonómicas), os “maragatos” fazem-se valer pela sua história e pelos seus costumes.

maragatos espanha povo

© Mapa Municipal de La Maragateria (León, Espanha), (Wikicommons, Tony Rotondas).

maragatos espanha povo

© Marmarole da Palus S.Marco no Inverno, (Wikicommons, Antonio De Lorenzo).

“Microclima” leonês

A “Maragatería”, comarca bem próxima do centro geográfico da província leonesa, é composta por mais de 50 “pueblos” e 8 “ajuntamientos”, sendo Astorga a localidade mais conhecida. Situa-se nas estepes montanhosas, quase cobertas por neve durante o ano e é, essencialmente, rural, pouco desenvolvida, com várias aldeias. Para o “maragato” Veja Carrera, falamos de 400 km quadrados de má e fria terra, sem grandes recursos, “alegrada”, apenas, pelo rio Turienzo e habitada por cerca de 15 000 pessoas.

Talvez resguardados pela encosta montanhosa e “debaixo” de neve, os seus hábitos e tradições não sofreram grandes variações. Como se diz que o que não mata torna-nos mais fortes, a força da globalização não parece, igualmente, ter chegado, até agora, perto deste composto populacional que se definiu como “maragato” entre seis a sete séculos atrás. Enquanto povo, são anteriores ao nome. Os seus cerimoniais e tradições ao estilo sacerdotal, com trajes típicos, parecem indiciar que não advêm de antigos berberes mas, sim, de fenícios ou judeus que chegaram antes da queda de Roma (talvez para explorar o ouro). Tais prováveis nómadas ter-se-ão relacionado com alguma primitiva tribo já lá fixada que reagia à romanização e que, entretanto, terá acabado por aceitar um monoteísmo semita, associado-o à sua anterior convicção religiosa.

maragatos espanha povo

© Vista de Teleno desde Astorga, (Wikicommons, Rodelar).

Esta cultura prima, acima de tudo, por uma singularidade que só espontaneamente e por via das circunstâncias se desenvolveu. As condições naturais e o histórico civilizacional e cultural deste povo acabaram por constituir um espaço de recriação e de desenvolvimento populacional único, como se de um “microclima” se tratasse. Em terra fria, o “calor” com origem nesse “micro-clima”, fruto da relação destas condicionantes, resultou na singularidade e é aqui que o Homem, por mais que tente distanciar-se, se assemelha cada vez mais à Natureza que o criou, tão igual às plantas.

maragatos espanha povo

© "El Maragato", ilustração do livro "Los Españoles pintados por sí mismos", edição de 1851, (Wikicommons).

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Mundo “globalizado” de contradições

A história “maragata” dita a importância da palavra para as vidas destas pessoas e para os seus negócios. A lealdade e a valentia eram outras das características pertencentes à matriz deste povo e que hoje, quer queiramos quer não, nos faz reflectir sobre a mudança das mentalidades da actualidade ocidental.

O maior refúgio desta cultura acabou por ser o mundo globalizado, em crescendo, sem que conseguisse apanhar o rumo deste localismo que, ainda assim, se descentralizou para a América Latina. Ainda que sendo um “pequeno ramo do corpo central” deste povo, os “maragatos”, no século XVIII, acabaram por fundar algumas povoações argentinas nas colónias espanholas da Patagónia, perante a ameaça, para a Coroa espanhola, de os ingleses e os franceses o fazerem primeiro. O actual território do Uruguai também viu estabelecer-se outra destas povoações.

Ainda que minimamente espalhado (pelo menos em tempos), este povo não pareceu nunca ter recebido generalizado reconhecimento e atenção do mundo. Bem pelo contrário. Em parte, por vontade dos próprios. A sua endogamia, inadvertidamente mas também enquanto parte integrante da sua cultura (mais em séculos anteriores do que agora), propiciou um maior isolamento face ao resto da sociedade, reforçando as próprias relações entre os da mesma “raça”, segundo Veja Carreira. O motivo para isso centrava-se na crença e no orgulho na sua génese biológica e na sua “consequente superioridade” sobre as tribos vizinhas, à custa da pureza de sangue, mais do que por questões de auto-defesa ou de mero isolamento.

De novo contra as expectativas, uma cultura deste cariz, pobre em número mas demasiado forte em simbolismo, resiste e insiste contrariando a tendência da globalização. Precisamente, protegendo-se dela, vivendo imiscuída no meio desse mundo quase sem fronteiras, que todos os dias influencia e sofre influências, por baixo da capa “global”. A estrutura social deste grupo vive e recria-se, centrada na suas tradições e no seu conservadorismo. Dificilmente, hoje, poderia ser alternativa às culturas mais abertas que vivem em seu redor. Mas, mais do que cultura, falamos de pessoas que não querem perder o seu pé. Querem, sim, ser tratadas como pessoas, no meio em que confiam. Seria realista desejar, em simultâneo, uma cultura aceite por todos e por cada um?

maragatos espanha povo
© Monumento ao Multiculturalismo de Francesco Pirelli, Union Station, Toronto, (Wikicommons, Robert Taylor).

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Mundo “globalizado” de contradições

A história “maragata” dita a importância da palavra para as vidas destas pessoas e para os seus negócios. A lealdade e a valentia eram outras das características pertencentes à matriz deste povo e que hoje, quer queiramos quer não, nos faz reflectir sobre a mudança das mentalidades da actualidade ocidental.

O maior refúgio desta cultura acabou por ser o mundo globalizado, em crescendo, sem que conseguisse apanhar o rumo deste localismo que, ainda assim, se descentralizou para a América Latina. Ainda que sendo um “pequeno ramo do corpo central” deste povo, os “maragatos”, no século XVIII, acabaram por fundar algumas povoações argentinas nas colónias espanholas da Patagónia, perante a ameaça, para a Coroa espanhola, de os ingleses e os franceses o fazerem primeiro. O actual território do Uruguai também viu estabelecer-se outra destas povoações.

Ainda que minimamente espalhado (pelo menos em tempos), este povo não pareceu nunca ter recebido generalizado reconhecimento e atenção do mundo. Bem pelo contrário. Em parte, por vontade dos próprios. A sua endogamia, inadvertidamente mas também enquanto parte integrante da sua cultura (mais em séculos anteriores do que agora), propiciou um maior isolamento face ao resto da sociedade, reforçando as próprias relações entre os da mesma “raça”, segundo Veja Carreira. O motivo para isso centrava-se na crença e no orgulho na sua génese biológica e na sua “consequente superioridade” sobre as tribos vizinhas, à custa da pureza de sangue, mais do que por questões de auto-defesa ou de mero isolamento.

De novo contra as expectativas, uma cultura deste cariz, pobre em número mas demasiado forte em simbolismo, resiste e insiste contrariando a tendência da globalização. Precisamente, protegendo-se dela, vivendo imiscuída no meio desse mundo quase sem fronteiras, que todos os dias influencia e sofre influências, por baixo da capa “global”. A estrutura social deste grupo vive e recria-se, centrada na suas tradições e no seu conservadorismo. Dificilmente, hoje, poderia ser alternativa às culturas mais abertas que vivem em seu redor. Mas, mais do que cultura, falamos de pessoas que não querem perder o seu pé. Querem, sim, ser tratadas como pessoas, no meio em que confiam. Seria realista desejar, em simultâneo, uma cultura aceite por todos e por cada um?

maragatos espanha povo
© Monumento ao Multiculturalismo de Francesco Pirelli, Union Station, Toronto, (Wikicommons, Robert Taylor).

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Mundo “globalizado” de contradições

A história “maragata” dita a importância da palavra para as vidas destas pessoas e para os seus negócios. A lealdade e a valentia eram outras das características pertencentes à matriz deste povo e que hoje, quer queiramos quer não, nos faz reflectir sobre a mudança das mentalidades da actualidade ocidental.

O maior refúgio desta cultura acabou por ser o mundo globalizado, em crescendo, sem que conseguisse apanhar o rumo deste localismo que, ainda assim, se descentralizou para a América Latina. Ainda que sendo um “pequeno ramo do corpo central” deste povo, os “maragatos”, no século XVIII, acabaram por fundar algumas povoações argentinas nas colónias espanholas da Patagónia, perante a ameaça, para a Coroa espanhola, de os ingleses e os franceses o fazerem primeiro. O actual território do Uruguai também viu estabelecer-se outra destas povoações.

Ainda que minimamente espalhado (pelo menos em tempos), este povo não pareceu nunca ter recebido generalizado reconhecimento e atenção do mundo. Bem pelo contrário. Em parte, por vontade dos próprios. A sua endogamia, inadvertidamente mas também enquanto parte integrante da sua cultura (mais em séculos anteriores do que agora), propiciou um maior isolamento face ao resto da sociedade, reforçando as próprias relações entre os da mesma “raça”, segundo Veja Carreira. O motivo para isso centrava-se na crença e no orgulho na sua génese biológica e na sua “consequente superioridade” sobre as tribos vizinhas, à custa da pureza de sangue, mais do que por questões de auto-defesa ou de mero isolamento.

De novo contra as expectativas, uma cultura deste cariz, pobre em número mas demasiado forte em simbolismo, resiste e insiste contrariando a tendência da globalização. Precisamente, protegendo-se dela, vivendo imiscuída no meio desse mundo quase sem fronteiras, que todos os dias influencia e sofre influências, por baixo da capa “global”. A estrutura social deste grupo vive e recria-se, centrada na suas tradições e no seu conservadorismo. Dificilmente, hoje, poderia ser alternativa às culturas mais abertas que vivem em seu redor. Mas, mais do que cultura, falamos de pessoas que não querem perder o seu pé. Querem, sim, ser tratadas como pessoas, no meio em que confiam. Seria realista desejar, em simultâneo, uma cultura aceite por todos e por cada um?

maragatos espanha povo
© Monumento ao Multiculturalismo de Francesco Pirelli, Union Station, Toronto, (Wikicommons, Robert Taylor).

sábado, 23 de junho de 2012

quarta-feira, 20 de junho de 2012

O poeta triste do rock

 

Ian Curtis, vocalista dos Joy Division, foi encontrado morto em Macclesfield, numa manhã de domingo, 18 de Maio de 1980. Tinha 23 anos. Havia cometido suicídio. Ian estava no momento envolvido nas gravações de um novo álbum, um novo single, e em vésperas de embarcar na primeira tournée internacional com a banda pela América...nascia o mito.

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© Ian Curtis, Joy Division, (Sergipe, Wikicommons).

Primeiro estranha-se, depois há um choque profundo na nossa alma, depois tudo se adoça perante a beleza sombria e crua dos poemas de Ian Curtis, acompanhados pelas melodias envoltas em neblina sonora, ritmo militar de bateria e um sentimento profundo em cada riff dedilhado. Não é fácil tornar a ser a mesma pessoa após conhecer esta extraordinária banda. E isso não é de todo, mau. De facto, é maravilhoso.

Tudo começou quando, em 1976, Ian Curtis conheceu os seus futuros colegas de banda num concerto dos Sex Pistols em Manchester. Eram eles : Bernard Sumner na guitarra, Stephen Morris na bateria e Peter Hook no baixo. Ofereceu-se para vocalista e compositor. Nasceram então os Warsaw, versão punk da futura banda, os Joy Division que viriam a durar de 1976 a 1980. São talvez, a banda mais famosa do post-punk. Editaram apenas dois álbuns, pela Factory, editora do famoso Tony Wilson. O álbum Unknown Pleasures de 1979 e Closer de 1980. No entanto, foi com o single Love Will Tears Us Apart lançado após a morte de Ian Curtis que se tornaram famosos.Passaram a figurar na história da música mundial.

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© Ian Curtis, Joy Division, (Michel Enkiri, foto de Phillipe Carly).

Ian sempre gostou de musica, de literatura, especialmente de poesia... desde pequeno. Com o surgimento do punk e do lema “Do it Yourself” (faz tu mesmo), a possibilidade para qualquer jovem amante de musica subir a um palco nunca foi tão real. As portas abriram-se nesse sentido e qualquer um poderia de facto, mesmo não sendo tecnicamente assombroso, ter uma banda e possível sucesso.

Não é o caso dos Joy Division, eles sabiam bem tocar e o que faziam. Conheceram-se desse modo ainda o punk vigorava e acabaram por ser pioneiros no que se seguiu : O post-punk. Uma resposta antagónica ao punk. De facto a musica dos Joy Division é intimista, mais virada para as emoções humanas, sombria, com melodias simples mas negras, profunda pela poesia das suas letras que tanto roçavam o auto-retrato da alma de Ian Curtis, mas ao mesmo tempo também podia ser dançável e enérgica. Alguns exemplos dessa obscuridade devastadora são as musicas : Decades e The Eternal do segundo e póstumo álbum Closer. Este álbum surge aliás, como uma coincidência macabra, visto que o próprio titulo, a art-work da capa principal ( Uma lápide do cemitério Staglieno,em Génova, Itália) e a sonoridade pesada parecem prever o que de facto iria acontecer : Ian enforcou-se na sua cozinha em Macclesfield, segundo a lenda ouvindo o álbum The Idiot de Iggy Pop.

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© Ian Curtis, Joy Division, (Michel Enkiri, foto da esquerda de Barry Plummer; foto da direita de Martin O'Neill).

Ian sofria de epilepsia. Nos anos 80 a cura para esta doença ainda passava muito pela combinação de vários medicamentos de modo a se descobrir a formula mais eficaz de controlo dos ataques. No entanto, além dos efeitos secundários, a doença não era de modo algum compatível com o modo de vida de “ rock star” que Ian levava. Após o sucesso do álbum Unknown Pleasures, em 1979, o primeiro da banda, a epilepsia de Ian começava a agravar-se em palco. Tanto que começa a tornar-se uma espécie de dança em transe espiritual para quem assistia...O público ignorava estes factos estando longe de imaginar que o que se passava na realidade é que ele tinha fortes crises epilépticas em plena actuação. A sua vida pessoal também era atribulada conhecendo-se a ligação extra-conjugal com Annik Honoré enquanto mantinha o casamento com Deborah Woodruff, casados quando ele apenas tinha 19 anos e ela 18 anos. Pelo meio nascera Natalie que tinha apenas um ano quando o pai partiu.

Existem sobre Ian actualmente centenas de biografias online, livros e até um filme bastante agraciado pela crítica : “Control” de Anton Corbijn. Control é um filme biográfico a preto e branco sobre a vida e a morte de Curtis, relatando os primórdios da banda e a sua vida conjugal até ao seu suicídio. Foi escrito a partir do livro da esposa de Ian, Deborah Curtis, intitulado Touching from a Distance. O filme estreou em 2007, abriu o Festival de Cannes desse ano com óptimas críticas ganhando pelo meio diversos prémios cinematográficos independentes.

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© Ian Curtis, Joy Division, (Michel Enkiri, foto de Pierre Rene Worms).

Os poemas de Ian Curtis são de uma beleza inebriante, por vezes chocante, de tão explicitamente nos confrontar com os seus medos, frustrações e desesperos e consequentemente, ir ao mais intimo de nós próprios. Além do inegável talento, este ser possuía uma voz de barítono inconfundível. Foi pioneiro como compositor, no sentido em que até ele, ninguém tinha exposto tais destroços emocionais como alienação, isolamento, um amor acabado... de maneira tão frontal. Atinge-nos como uma bofetada directamente ao coração. Após Jim Morrison, Ian Curtis foi provavelmente o seguinte poeta do Rock, mas mais amargurado, castigado pela doença, pela personalidade melancólica, pelos problemas conjugais e pelo crescente sucesso da banda. Ian é mais uma prova que a morte, infelizmente, engrandece.

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© Ian Curtis, Joy Division, (Michel Enkiri, foto de Harry Goodwin).

E enquanto tremia e gesticulava em palco, vestido de negro, olhos azuis brilhantes… assim cantava :

"Mother I tried please believe me,

I'm doing the best that I can.

I'm ashamed of the things I've been put through,

I'm ashamed of the person I am

Isolation"

"Mãe, eu tentei, por favor acredita em mim

Estou a fazer o melhor que posso

Tenho vergonha das coisas que tenho feito

Tenho vergonha da pessoa que sou

Isolamento"

Por fim, um clássico da banda, a música "Atmosphere" em sua memória

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sexta-feira, 8 de junho de 2012

Paulo Coelho

Tomas Tranströmer

 

In this undated photo provided by Bloodaxe Books on Thursday, Oct. 6, 2011, Swedish poet Tomas Transtromer poses for a photograph at an unknown location. The 2011 Nobel Prize in literature was awarded Thursday, Oct. 6, 2011 to Tomas Transtromer, a Swedish poet whose surrealistic works about the mysteries of the human mind won him acclaim as one of the most important Scandinavian writers since World War II. (AP Photo/Paula Transtromer, Bloodaxe Books) EDITORIAL USE ONLY

 

 

Os fios elétricos

estendidos por onde o frio reina

Ao norte de toda música.

O sol branco

treina correndo solitário para

a montanha azul da morte.

Temos que viver

com a relva pequena

e o riso dos porões

Agora o sol se deita.

sombras se levantam gigantescas.

Logo logo tudo é sombra.

As orquídeas.

Petroleiros passam deslizando.

É lua cheia.

Fortalezas medievais,

cidades desconhecidas, esfinges frias,

arenas vazias.

As folhas cochicham:

Um javali está tocando órgão.

E os sinos batem.

E a noite se desloca

de leste para oeste

na velocidade da lua.

Duas libélulas

agarradas uma na outra

passam e se vão

Presença de Deus.

No túnel do canto do pássaro

uma porta fechada se abre.

Carvalhos e a lua.

Luz e imagem de estrelas salientes.

O mar gelado.

Tomas Tranströmer

http://www.newyorker.com/online/blogs/books/2011/10/tomas-transtromer-nobel-prize.html

domingo, 3 de junho de 2012

- Helena Frontini – Recuperação -


Recuperação

O silencio mostrou-se como um lenitivo.
Fico só, lambendo minhas feridas
Em companhia da natureza que me refugia.
Meu olhar distante procura certo alento
Nas flores, no voo das aves, no sol,
No rio que segue sempre, no vento...
Uma névoa ensombrou meu ideal.
Sonhos perdidos,o coração despreparado
Para o sofrimento e o desamor.
Não sei como reagir nem mesmo pensar.
Preciso de solidão e calmaria,
Gerada dentro da alma e não fora,
Em becos e ruas sem saída.
Sofro e ninguém pressente minha dor
Espero, em meu tempo de esplim...
Retorno quando me achar
E souber o que fazer de mim.

- Helena Frontini -

Terrence Malick e o cinema existencial

 

Terrence Malick é um desses realizadores cujas obras traduzem uma visão profunda e poética, por vezes metafísica. Em 40 anos de carreira, fez apenas cinco longas-metragens. Mas não lhe falta o apoio dos estúdios.

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Filme "Badlands".

Com um currículo de cinco longas e um curta-metragem, em uma carreira de mais de quarenta anos, Terrence Malick tem contado suas histórias de forma peculiar e inovadora, muito por influência de seu interesse pela filosofia e exploração da dramaticidade da narrativa. Seu primeiro longa-metragem, Terra de ninguém (Badlands, 1973), destacou-se pelo trabalho de edição e pela integração com o elenco, refletindo na tela a naturalidade da atuação. Todos os grandes diretores são lembrados por conseguir arrancar este nível de profundidade de seu elenco.

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Filme "Badlands".

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Cartaz do filme "Badlands".

Alguns pontos particulares da direção de Malick já se encontravam presentes nesta primeira vez, mesmo que em menor escala que nos filmes posteriores - marcas da evolução de um cineasta estudioso e minucioso em sua visão poética. Seu segundo longa foi Cinzas no paraíso (Days of heaven, 1978), um dos primeiros trabalhos de Richard Gere. É uma história passada num cenário bucólico das plantações do Texas no início do século XX. Mais uma vez, Malick foi elogiado por conseguir utilizar o ambiente como mais um personagem, que reflete as ações e os sentimentos dos personagens humanos.

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Cartaz do filme "Days of Heaven".

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Filme "Days of Heaven".

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Filme "Days of Heaven".

Depois de Cinzas no paraíso, Malick afastou-se e decidiu viver em Paris, escrevendo outros projetos para o cinema. Seu filme seguinte surgiu apenas 20 anos depois, baseado no livro de James Earl Jones, Além da linha vermelha (br) / A barreira invisível (pt) (The thin red line, 1998). Nunca a Segunda Guerra Mundial tinha sido filmada desta forma. Um enorme elenco de atores debutantes (e alguns consagrados) participou das filmagens, na Austrália e Ilhas Salomão.

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Cartaz do filme "The Thin Red Line".

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Filme "The Thin Red Line".

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Filme "The Thin Red Line".

A intuição de Malick para a captação do melhor momento de cada cena ficava evidente na ilha de edição, onde centenas de metros de filme eram revistos para o corte. Isso fez com que muitas cenas fossem repetidas muitas vezes - não para conseguir a exatidão da expressão do ator, mas para captar tudo o que pode fazer parte desta expressividade, e isso, muitas vezes, condiz com a natureza, intensamente representada em seus filmes. Na direção de O novo mundo (2006), que conta uma nova versão do romance de John Smith e Pocahontas durante a colonização inglesa da América do Norte, é bastante clara esta dedicação ao ambiente natural. Para o longa-metragem foram filmados mais de 300 quilômetros de rolo de filme.

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Cartaz do filme "The New World".

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Filme "The New World".

Malick, antes de se tornar diretor de cinema, transitou pelo meio acadêmico da filosofia, especializando-se em Martin Heidegger (1889-1976). O cineasta trouxe a bagagem filosófica do existencialismo de Heidegger para os seus filmes. Seus poucos trabalhos mostram o homem face à imensidão da natureza, uma contemplação que retoma mais uma vez a literatura heideggeriana.

A edição dos filmes de Malick pode destoar muito do que fora imaginado no material primário. Na pós-produção de Além da linha vermelha, o diretor experimentou as narrações que havia gravado com alguns atores e atrizes do elenco, da mesma maneira que havia feito em Terra de ninguém com a personagem de Sissy Spacek. Estas narrações são os momentos mais significantes na forma transcendental como Malick explora as multimodalidades do cinema. As chamadas narrativas experimentalistas surgem em tomadas que contemplam o homem em contato com a natureza (tanto a do ambiente quanto a sua própria). As falas, que soam ora como poesia, ora como questões filosóficas, transformam o filme numa fonte de reflexão. Em Terra de ninguém, a substituição de alguns diálogos pelas narrativas experimentalistas foi uma tentativa de Malick contar a história sob um novo foco, uma projeção do pensamento humano sobre as próprias ações. Seu diálogo com o espectador se dá tanto na ação das personagens quanto dentro de seus pensamentos, às vezes extremamente intimistas e metafísicos.

O estilo inconfundível de Malick é também reflexo de sua vida reservada e distante dos holofotes, do trabalho minucioso antes e após o filme (Malick se dedica muito ao roteiro e à edição, as filmagens costumam ser assumidas por outras equipes por ele escolhidas). Esses e outros fatores convergem em projetos com um poder filosófico pouco visto em outras mãos: falam do que todos possuem dentro de si mas que, muitas vezes, não conseguem traduzir sozinhos.

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Cartaz do filme "The Tree Of Life" ("A Árvore da Vida" (br)).

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Filme "The Tree Of Life" ("A Árvore da Vida" (br)).

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Filme "The Tree Of Life"("A Árvore da Vida"

sábado, 2 de junho de 2012

Oliver Vernon - Pinturas que deliram o olhar

 

Pinturas que parecem formas de vida coloridas ou cidades futuristas que se expandem e se retraem flutuando no espaço. O Caos que se reordena, a ordem que se desconstroi. Formas geométricas que parecem explodir.

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Abstrato, expressionista, surreal. As formas quebradas, dobradas, espiraladas, que se unem e se separam. Embriaguez para a retina.
Sobre como tornar visual o metafísico, a dualidade, a concepção do cosmos. Eis a obra de Vernon.

Oliver Vernon nasceu em Nova York em 1972. Recebeu seu BFA pela Parsons School of Design em 1995, e atualmente vive e trabalha no Brooklyn. Ele já expôs seu trabalho em cidades de todo os Estados Unidos e internacionalmente. Seu trabalho faz parte de inúmeras coleções, incluindo o Museu Metropolitano de Arte. Oliver Vernon se vale de uma gama variada de influências, desde o expressionismo abstrato, para postar surrealismo pop e do acabamento polido do realismo figurativo.
Formalmente, seu trabalho é sobre a desconstrução e, portanto, a necessária reconstrução do espaço visual. A partir desta dicotomia central, deriva muitos outros: lógica / ilógica / físico / metafísico / prisão / libertação. Suas pinturas vem até nós talvez, como snapshots detalhadas dos poucos milissegundos primordiais quando o modelo do universo estava sendo esculpido dos espasmos finais do caos. Neste sentido, vale tudo. Cada pintura tem o seu próprio conjunto de regras, ou melhor, as regras estão a ser dobrado, quebrado e, finalmente, formado dentro de cada pintura. Cor, forma, energia, arquitetura, o bom, o mal, a carne e a máquina estão à espreita, nunca como entidades físicas, mas como arquétipos transitórios em busca de seus lugares finais no âmbito do cosmos.
Além desta visão macro, o trabalho de Oliver pode ser visto no nível micro também. Podemos ver suas pinturas como representações de como a mente é formada a partir de uma base de pensamento, a razão e a estética, e como essas entidades estão simultaneamente em desacordo e interligadas.

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sábado, 19 de maio de 2012

David Fincher

Som e fúria: a trilha de Os Homens que Não Amavam as Mulheres (2011)

 

A primeira parceria entre o diretor David Fincher e a dupla Trent Reznor e Atticus Ross rendeu o Oscar de melhor trilha sonora para "A Rede Social" (2010). Descoberta a fórmula, eles retornam com o tenso thriller baseado na primeira parte da trilogia do escritor sueco Steig Larsson. Intensa e precisa, é difícil contemplar, da primeira vez, todos os elementos que compõem este emaranhado caótico que aumenta a tensão a cada nova cena.

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Trent Reznor e Atticus Ross no estúdio.

Enquanto Fincher se responsabilizava pela construção do braço investigativo da história, tema assumido com muita competência como já visto em Seven (1995) e Zodíaco (2007), Reznor e Ross buscavam referências sobre a montagem de uma trilha sem o uso de orquestra. Uma grande oportunidade de mostrar os recursos do som digital. O processo de criação da trilha passou por diversas revisões, testadas próximo da conclusão da produção, quando as cenas já estavam prontas para o filme. Isto ajudou a integrar iluminação, direção de arte e a performance dos atores na escolha de cada detalhe sonoro.

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Rooney Mara como Lisbeth Salander.

Toda composição deve seguir um caminho para contar a história. No caso de Os Homens que não Amavam Mulheres (ou, na versão de Portugal, "Os homens que odiavam mulheres"), Lisbeth Salander (interpretada por Rooney Mara) foi escolhida por Fincher para ser a sinfonia ambulante da trama. Sua presença na tela é o ápice da tensão. Ela é exatamente como a definem no filme: diferente em todos os sentidos. Lisbeth é perseguida por esta sonoridade toda a história. O espectador vibra por ela e sente sua dor, e isto fica maior com os sons que transmitem mais ainda, em harmonia, sua vida em meio ao caos.

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Cartaz do filme "Os Homens que não Amavam as Mulheres".

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Rooney Mara como Lisbeth Salander.

Fincher é bastante detalhista, e espera este mesmo nível de sua equipe. Ele concedeu total liberdade para que a dupla desenvolvesse a trilha. Sua única exigência foi que a dupla fizesse uma versão pesada da música Immigrant Song, do Led Zeppelin, com a voz de Karen O (vocalista da banda indie Yeah Yeah Yeahs). Reznor disse que é fácil “ferrar tudo” quando se mexe em uma música completa e famosa como Immigrant Song. Apesar do receio, eles confiaram na visão de Fincher, criando uma versão forte e energética para usar no trailer e na furiosa sequência de abertura (uma prévia eletrizante de uma história idem).

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David Fincher e Rooney Mara nas gravações.

O frio gélido da Suécia é praticamente um personagem presente ao longo de toda a história. A própria equipe de produção sentiu na pele o clima incrivelmente frio de certos períodos do ano em que raramente se vê a luz do sol. Uma referência para o frio, encontrada por Reznor, Ross e Fincher, foi Tubular Bells. A intenção de Reznor e Ross era descobrir como transmitir o som do gelo, algo tão presente naquela paisagem. A referência encontrada foi este álbum de 1973 do compositor inglês Mike Oldfield. Os sinos de Oldfield (em versão tratada pela dupla) resgatam os sussurros do passado, os segredos enterrados sob a neve. Eles conseguiram captar estes elementos e traduziram em som a atmosfera subversiva e ameaçadora. A trilha não vai apenas completar o ambiente: ela é o próprio ambiente.

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Daniel Craig como Mikael Blonkvist.

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